sexta-feira, 30 de outubro de 2009

De volta....

Mais de um ano se passou, e nenhum relato de indignação. No entanto, a cada dia que passa, mais indignações. Voltarei a postar todos elas.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Nas rugas do Clóvis

Outro dia desses conheci o Clóvis, um senhor de idade que mora na periferia de Porto Velho e tem oito filhos. Bom distante do Centro, com árvores de sombras generosas está a casa deste simples homem, que parece ser seu único patrimônio. Na verdade, o Clóvis é só mais um no meio de tantas pessoas que moram naquela região onde falta água potável e iluminação urbana (sem contar o asfalto). Da principal janela de casa, Clóvis se apresenta sofredor e ao mesmo tempo forte. Conta dos problemas que passou e de como lida no dia-a-dia para tentar a superação. A esposa do seu Clóvis é uma mulher comum, com a diferença de ser muda e surda. A dor daquele casal é absolutamente justificável. Eles perderam alguém de valor para o crime. E esse alguém é só mais uma vítima naquele local, o que não tira a indignação dos parentes por completo. A cada dia que passa, a dor do seu Clóvis aumenta, mas comove menos gente. O tempo não trouxe respostas para aquele humilde trabalhador, que mora numa casa de madeira. O sofrimento do seu Clóvis está em todas as partes do seu corpo: nas rugas do rosto, na mão que treme ligeiramente quando segura algum pertence do filho morto, no olhar cansado... Tudo que ele precisa esquecer todos os dias para levantar para trabalhar e sustentar a tal casa de madeira. A esperança do Clóvis....eu não sei qual é.

Ps.: não tenho foto dele, mas o bairro é na zona Sul

domingo, 4 de maio de 2008

O gosto do biribá, que nunca experimentei


Esse na foto é seu João (não lembro o nome dele, portanto assim vou chamá-lo). Sabe-se lá quais são suas perspectivas e sua história de vida, o fato é que encontrei-o do outro lado do Rio Madeira, nas famosas e formosas Cachoeiras do Teotônio. Há algum tempo, o tal do repiquete ilhou a casa deste morador, que conheci completamente embriagado de pinga em pleno meio dia de uma sexta-feira comum.
Inevitavelmente, me compadeci com aquela situação, mas parece que ele não se sentiu digno de pena. Entendi logo depois. Após alguns minutos de conversa debaixo do sol quente, observei timidamente as circunstâncias em que vivia aquele idoso homem. Simples quanto trocar de roupa, ele pulou na água para livrar-se do calor, enquanto eu não pude fazer o mesmo. Quem estava digno de pena naquela hora? Eu, é claro. Eu, que não tenho a fruta que quiser com um simples levantar de braços. Ou que não tem a paisagem do Madeira na minha janela. Que achei divertido andar de voadeira, coisa que ele tem como rotina.

Sem nem mesmo saber o meu nome, ele me recebeu bem, ajudando a “estacionar” a voadeira, como se já estivesse me esperando. A casa dele já estava muito cercada de água. Nos últimos dias, ele se abrigava na casa de um vizinho. Mesmo assim, me convidou para comer um peixe, no que parecia ser sua única panela em anos. Embora eu não tenha aceitado, ele me presenteou com um biribá, que eu revelei não conhecer. Mais uma vez, ele teve pena de mim, por não conhecer essa iguaria. Pelo teor alcoólico no sangue do sr. João, ele não percebeu que a fruta estava estragada, o que descobri quando estava longe. Continuo na minha ignorância quanto àquele sabor. Mas sem dúvida, levei daquela ilha um pouco da vida de seu João, e dos outros moradores. Não é que passei a invejar a vida que eles levam, pois quando as águas abaixarem todas as árvores morrerão e a fome será uma epidemia no local, como contou um deles que já tem experiência com os fenômenos da natureza. Mesmo assim, eles persistem e vivem por ano no mesmo local, e só depois daquela sexta-feira quente eu entendi por quê.



PS 1: Foto de Roni Carvalho
PS 2: Para chegar a casa do seu João, saindo de Porto Velho são cerca de 40 quilômetros até a Vila da Cachoeira. De lá, o motorista da voadeira conhecido como "Shell" faz o trajeto para o outro lado por R$ 30 em pouco menos de 15 minutos.

domingo, 23 de março de 2008

Eu gosto mesmo é de vida real


Eu levei minha alma para passear pelas ruas de Porto Velho. E tropeçava por outras. E via a minha em outras e às vezes não sabia onde estava a minha. A foto é só um retrato surreal que pouco diz da realidade de quem caiu pelas vielas, ruelas, e outras ela. E já não tenho mais direção. Um labirinto cheio de cor, cheiros e almas que vagam e buscam apenas estarem iguais do seu modo bem diferente. Durante o dia são aqueles que esbarram nas avenidas movimentadas, cheios de pressa. E à noite seguindo o instinto e a condição. E dá-lhe viver.
É bem mais do que lâmpadas que nunca existiram, mais do que a iminência das piores cóleras e o equilibrismo por entre as valetas dividindo o mesmo céu.
E nessa insustentável leveza do ser, eu gosto mesmo é de vida real.
ps1: A foto foi tirada em um bairro da zona Sul.
ps 2: inspiração Nação Zumbi

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Vendedores de pupunha


O semblante mistura sofrimento com esperança de receber alguma coisa. Qualquer coisa. Ela sai de longe da casinha, às margens da BR-364. As roupas estão cobertas por sujeira, não saberia dizer se é barro ou poeira. Pareciam estar sozinhos em casa. De pés no chão eles sorriem. Devem ser irmãos. Imagino que eles nem ao menos tem Certidão de Nascimento.
O tráfego pela rodovia é intenso, mas eles parecem estar acostumados a serem ignorados. Não lhe fiz qualquer pergunta, embora o olhar fosse resposta para quase tudo. Estão com sede ou fome? Não sei. Naquele curto espaço de tempo mil coisas me passaram pela cabeça. Ela fazendo comida para eles, colhendo o que pode da região. Imaginei que os pais acordam às cinco da manhã e pedalam até Itapuã (cidade mais próxima) e tentam fazer negócios. Imaginei que conseguir água limpa naquele local deve ser um trabalho duro. Cheguei a pensar nela carregando aqueles baldes antigos feitos de lata de tinta, enferrujados pelo tempo e respingados de cimento.
Sob um sol escaldante, o peso da lata faz com que ela derrame um pouco do precioso líquido a cada passo. Mas ela já não se importa mais com isso. Na minha imaginação ela não sabe escrever o próprio nome. No entanto, sabe contar. Depois que os perdi de vista na imensidão da rodovia, imaginei também o futuro dos pequenos, seguindo a triste tendência. Ela é uma dona-de-casa com cinco filhos de caminhoneiros. Os dois trabalham em uma mineradora.
O resto, não consegui pensar, mas acho são os que vão pedalar às cinco da matina. Nem ao menos imagino como eles lidam com o tempo. Como comemoram um aniversário, páscoa, ano novo? Nada disso eu perguntei. Só imaginei de dentro do conforto do carro e desapareci.





07/02/08
BR-364 Sentido Cuiabá, próximo a Itapuã D´Oeste.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

José Cabral Filho

Ando com saudades dele, mesmo tendo-o conhecido pouco. Nascido no estado de Sergipe, em Aracaju, começou a trabalhar em Rádio, como operador. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se casou com Eleuza Azevedo e teve três filhas e um filho. Ganhava pouco, sustentava a família e morava em um apartamento de apenas dois quartos com os quatro filhos, no modesto bairro do Irajá.

Na cidade maravilhosa, trabalhou como operador de áudio em várias rádios AM, como a rádio Nacional. Fazia "bico" adoidado. Deixou saudades no bairro do Irajá, em Sergipe, em Rondônia...O câncer levou seus cabelos e deixou seu bom humor de sempre. Morreu em 1994, nem pude dizer adeus.

Quando ele foi embora, eu só tinha oito anos, e nem sabia que iria gostar dele tanto assim. Pra mim não deixou nada material de herança, e nem que quisesse. Sempre foi humilde. Mas deixou no DNA, o gosto pela comunicação. Ando querendo saber dele...Essa foi a única foto que achei, que tenho com ele.

domingo, 16 de setembro de 2007

Porto Velho na real




Em visita ao grande Rio Madeira, me deparei com essa grande imundície em suas margens. Não pude deixar de fotografar. O cartão postal de Rondônia está assim. Essa porcaria toda faz parte da esperança do desenvolvimento econômico do estado.

Como rondoniense, sinto vergonha disso. Proponho um mutirão. Quem se habilita?